Domingo passado (27/9), a revista Serafina, da Folha de S. Paulo, pediu a alguns fotógrafos que enviassem uma foto relacionada a um poema do escritor João Cabral de Melo Neto, cuja morte completa dez anos neste outubro que se aproxima. Colaboramos com uma imagem, que foi publicada no índice da revista.

A inspiração está no poema que segue:
CATAR FEIJÃO
Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.
João Cabral de Melo Neto
Abaixo, nossas reflexões sobre o texto:
O poema reflete sobre o ato de escrever e o compara com o de catar feijão. A metalinguagem desta foto pode ser comparada à do poema. Assim como escrever e catar feijão, fotografar é também sempre uma escolha, na qual o instante definitivo, eternizado numa imagem plana, é registrado a partir de um momento que pode ser “pescado” ou criado, dirigido.
Nessa imagem, vemos um casal que fotografa os filhos posando, numa situação construída, encenada por eles. Nosso clique, porém, foi “pescado”, roubado.
Além disso, essa cena clicada por nós simboliza a pedra do poema, os grãos que afundam e dão peso, profundidade ao texto : “a pedra dá à frase seu grão mais vivo”.
Nessa mesma tarde, outras fotos foram feitas nesse cenário, mas foi essa que apresentou “um grão imastigável, de quebrar dente”, a cena imensamente bela de uma foto de família num atardecer.